Inclusão, acessibilidade e writing

Uma responsabilidade de todes

A imagem mostra um retângulo vermelho que tem 5 bolinhas brancas juntas, do lado esquerdo, e uma bolinha branca isolada, do lado direito.

É sabido que muita gente usa o “x” e o “@” na linguagem escrita, para deixá-la neutra, sem definição de gênero masculino ou feminino nas palavras.

Há um bom tempo vi uma informação super relevante que falava sobre os problemas de acessibilidade que isso causava (indo justamente na contramão da inclusão) e sugestões de solução, como substituir “x” e “@” pela letra "e"(explico sobre isso mais a frente).

Vi isso em diversos lugares e posts e por isso não publiquei nada a respeito: achei que seria mais do mesmo pra todes. Apenas absorvi a mensagem e imaginei que em breve a maior parte das pessoas estaria fazendo uso, numa adaptação natural.

Muito tempo se passou e como ainda vejo muita gente usando “x” e “@”, achei importante falar a respeito e trazer alguns questionamentos.

👉🏻 O uso de ‘xis’ e de ‘arroba’

Eles vieram como um posicionamento humanitário inclusivo, de forma a incluir pessoas que não se sentem representadas por um ou outro gênero.

Exemplo: ao invés de escrever “todas”, a letra “a” é substituída por “x” ou “@”.

Vieram também como postura ideológica, já que as construções na língua portuguesa são predominantemente masculinas. Foi um movimento super importante e uma grande conquista ver tanta gente se comunicando dessa forma.

Então, ao ler informações sobre os problemas que isso traz pra acessibilidade, achei que seria rápido e natural que todes se adaptassem ao novo modelo sugerido.

🤔 O problema de usar “xis” e “arroba”

Os leitores de tela, utilizados por pessoas que não conseguem ver, apenas ouvir o conteúdo, não reconhecem a utilização de “x” e “@” no meio de determinadas palavras.

Por exemplo, a palavra “todas”: se escrita com “@” é lida pelo software da seguinte forma: “tod arroba ésse”. Se escrita com “x” é lida como “tod xis ésse”. Isso confunde o usuário que não está somente escutando o conteúdo, sem vizualizá-lo.

A imagem tem a palavra “todas” escrita duas vezes: uma com “@” e outra com “x” no lugar do “a”, ilustrando a explicação anterior.

🧐 E aí?

Bom, assim a gente tampa uma panela mas destampa outra. Há intenção de ser inclusivo em relação a questões de gênero, mas passa a excluir quem tem deficiência visual.

E aí torna-se fundamental buscar alternativas, além de divulgar isso ao máximo.

A informação que vi no passado era justamente sobre algumas formas de resolver este ponto:

  • Alternativa 1 — utilizar ambas as palavras na frase: “todas e todos”
  • Alternativa 2 — utilizar a letra “e” ao invés de “x”ou “@”: “todes”

Imaginei que a 1 não vingaria, mas achei que a 2 rapidamente se tornaria real e geral. Não foi o que aconteceu. Ainda vejo muita gente usando “@” e “x”.

🤨 O problema que quero entender

Por qual motivo muita gente ainda usa “@” e “x” ao invés de “e”?

Eu sou totalmente a favor da escrita inclusiva. Mas entendo que é um novo hábito e, portanto, não é tão mecânico. E, embora eu queira me policiar para escrever mais desta forma e incentivar mais pessoas a fazer o mesmo, o ponto deste artigo é outro.

O questionamento aqui não é Por qual motivo as pessoas não escrevem de forma inclusiva.

Mas sim: Por qual motivo há pessoas que, embora escrevam de forma inclusiva, continuam usando "@" e "x" se isso traz um problema de inclusão.

A raiz do problema que trago não é elas escreverem desse jeito, mas sim o que as leva a escrever assim. Para, com isso, poder propor soluções que as ajudem a se adaptar.

✍🏻 Dúvidas, suposições e uma certeza

Como UX Designer me sinto na obrigação de, ao invés de criticar e reclamar, questionar pra entender o que pode estar acontecendo.

  • Será que essa informação ainda não alcançou muita gente?
  • Será que a maioria dos que viram essa informação não entendeu qual é exatamente o problema? Talvez muita gente não entenda como funciona um leitor de telas
  • Será que as pessoas tentaram fazer substituições mas encontraram dificuldades no caminho* e isso as fez desistir, ou deixar pra depois?
  • A única certeza é de que o problema existe

*eu mesma tive dúvidas e pausas ao tentar escrever de forma mais inclusiva, sem deixar confuso pra ninguém e seguindo boas práticas de acessibilidade que parei pra pesquisar. Levei mais tempo do que o normal pra escrever um texto. E sei que ainda está muito longe de ser o suficiente.

☝🏻Conclusão (ou não)

Sozinha não chegarei a nenhuma conclusão, a não ser sobre as dores que eu tive ao tentar escrever. Sem identificar as dores dos outros é difícil propor soluções.

Se precisar colocar a boca no trombone pra gritar algo, eu coloco, mas 1º preciso saber o que gritar! Não sei onde exatamente está o problema pra maioria das pessoas e o intuito deste artigo é tentar entendê-lo.

Repito:

O questionamento aqui não é “Por qual motivo as pessoas não escrevem de forma inclusiva.

Mas sim: “Por qual motivo há pessoas que, embora escrevam de forma inclusiva, continuam usando “@” e “x” se isso traz um problema de inclusão.

Tá tudo bem se você não sabia sobre isso, se não tinha entendido, ou se ainda não entendeu. Tudo bem se você tentou se adaptar mas encontrou dificuldades no caminho e ainda não conseguiu fazer essa transição.

Só não podemos deixar de falar a respeito, debater, e trazer à tona algo que acabou ficando incoerente: excluir pessoas ao tentar incluir.

Fique à vontade pra conversar comigo, expor opiniões, pensamentos, tirar dúvidas (se eu não souber a resposta, no mínimo ajudarei a buscá-la!), o que for!

Sou uma UX Designer completamente apaixonada por buscar soluções que estejam de fato baseadas nas reais necessidades do usuário.

Sou uma UX Designer completamente apaixonada por buscar soluções que estejam de fato baseadas nas reais necessidades do usuário.